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Carta aos Deserdados pelo Tempo
Da Abadia das Mariposas para aqueles que escrevem contra o relógio.
Carta
Alguém deveria ter-lhe contado sobre o caos sublime que é derramar palavras no vazio. A escrita, este ritual de exposição onde fragmentos de nosso ser são desnudados, pena após pena, até formarmos asas incompletas que nunca parecem prontas para voar.
Ninguém nos advertiu sobre o tempo… Esta criatura faminta que devora nossas intenções antes mesmo que possam nascer. Você sente, não é mesmo? Aquela sensação de estar perseguindo um horizonte que se afasta a cada passo dado em sua direção.
E assim vivemos, nós, artesãos de realidades paralelas, sempre suspensos entre o que poderia ter sido e o que ainda não é. A escrita não é apenas um ofício; é uma ferida aberta, uma confissão perpétua que sangra através dos dedos e mancha as páginas com nossa verdade mais íntima.
O imediatismo do mundo exige frutos antes mesmo que as sementes toquem o solo. Mas as histórias verdadeiras, aquelas que nascem das profundezas, precisam do tempo das catacumbas — escuro, silencioso, paciente.
Suas palavras, meu caro habitante dos reinos imaginários, não estão se afogando. Estão apenas aprendendo a respirar debaixo d'água, a existir onde outros não conseguem sobreviver. Este aparente afogamento é, na verdade, metamorfose.
Não há tempo perdido quando se está construindo pontes entre mundos. Há apenas o tempo da gestação — misterioso, caótico e impossível de acelerar sem comprometer a criatura que está sendo gerada em seu interior.
Que suas palavras encontrem seu próprio ritmo de voo, mesmo que pareçam tardar. Pois somos todos retardatários no banquete da criação, e mesmo assim, cada um chega exatamente quando deve.
Com palavras tecidas no escuro,
Aifos.
Dicas
Um grimório de consolos oferecido pela Abadia das Mariposas aos que se afogam no rio das horas perdidas.
Abrigo nas Primeiras Horas: Habite o amanhecer antes que o mundo desperte. Não para produzir, mas para respirar no silêncio. As palavras que fogem durante o dia se aproximam neste território sem nome entre noite e manhã.
Culto do Inacabado: Dedique um caderno apenas aos fragmentos. Frases soltas, imagens sem contexto, vozes sem corpo. Não exija coesão. As grandes obras nasceram de estilhaços que, um dia, encontraram sua constelação.
Santuário Sem Expectativas: Crie um espaço onde as palavras possam crescer tortas. Um jardim selvagem sem poda nem desenho. Visite-o diariamente, não para colher, mas testemunhar o que brota quando ninguém está vigiando.
Companhia dos Ancestrais: Abra livros daqueles que enfrentaram o mesmo abismo. Toque brevemente as confissões de quem também lutou contra o tempo e, mesmo assim, conseguiu que suas palavras atravessassem séculos para alcançar você.
Pacto com a Noite: Antes de adormecer, entregue à escuridão seus lamentos pelo não-escrito. Peça que as sombras dissolvam a ilusão do momento perfeito para começar. Durma sabendo que amanhã existe apenas um tempo possível para criar: o agora imperfeito.
Atualização
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